Síndrome do pânico | Podcast #04

Neste podcast falamos sobre a diferença entre ataque de pânico e síndrome do pânico e como lidar com os sintomas angustiantes. Ouça.

Se alguém já passou por um ataque de pânico, não deseja o mesmo para ninguém. A sensação é de que se está mesmo prestes a morrer, inclusive com sintomas físicos como falta de ar e uma dor no peito muito semelhante a um infarto.

É importante destacar que ataque de pânico é uma coisa, síndrome do pânico é outra. Ataques podem ocorrer como sintomas de vários transtornos mentais, ou mesmo serem crises bem pontuais em pessoas que não têm nenhum transtorno.

Agora, para configurar uma síndrome do pânico, aí são necessários mais elementos. Para saber quais são e aprender a lidar com sintomas tão angustiantes, ouça a entrevista com o dr. Antônio Guerra, psiquiatra do pronto-socorro do Hospital Sírio-Libanês e do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP.

 

Transcrição completa do episódio

 

Luiz Fujita Junior — Olá, eu sou o Luiz Fujita. Sejam bem-vindos a mais um Entrementes, que é o podcast sobre saúde mental do Portal Drauzio Varella. Hoje nós vamos falar sobre um transtorno que muita gente que acompanha as nossas redes pede para falar, que é o transtorno do pânico. Há pouco tempo, pelo menos dois YouTubers, que são o PC Siqueira e a Carol Pinheiro, que têm muitos seguidores nos seus canais, fizeram um vídeo falando sobre a doença. Então é um transtorno que tem cada vez mais saído das trevas do preconceito, né?

O transtorno do pânico tem uma particularidade bastante interessante, que é a ocorrência de muitos sintomas físicos, concretos mesmo, durante as crises, e que se parecem com alguns ataques de outras doenças. Suor intenso, o coração começa a bater mais forte. E aí as pessoas chegam nas emergências, porque elas sentem que estão tendo um infarto, alguma coisa, vão desmaiar. Os exames dão negativos e, em muitos casos, para muitas pessoas, chega a hora de ter que enfrentar familiares e amigos descrendo da realidade daquela coisa que elas sentiram.

Para tirar algumas dúvidas sobre esse transtorno, está aqui hoje com a gente o Dr. Antônio Guerra, que é psiquiatra do pronto-socorro do Hospital Sírio-Libanês e psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Seja bem-vindo, doutor.

Antônio Guerra — Obrigado, Fujita.

Bom, a primeira dúvida é só para a gente, a gente não precisa se alongar muito nela, é mais para a gente tirar ela da frente. A gente pode chamar o transtorno do pânico de síndrome do pânico ou é um nome equivocado?

Eu, olha, na minha opinião, não, é o nome correto. Eu acho que todos os transtornos psiquiátricos nós podemos chamar também de síndrome. Por quê? Porque os transtornos todos, depressivo, transtorno bipolar, transtorno do pânico, eles têm múltiplas causas e não são categorias homogêneas, são heterogêneas, com causas diferentes, com apresentações diferentes. Então não é errado, sim, se referir a eles como síndromes. Ok.

 

Como é um ataque de pânico?

 

O ataque do pânico é uma entidade muito presente nesse transtorno, e é presente também em outros. Mas primeiro eu queria que o senhor descrevesse um ataque de pânico típico.

Existem variantes, né, mas o mais frequente é o ataque de pânico aonde você tem do tipo, entre aspas, cardíaco, né, onde você tem subitamente sintomas físicos de desconforto no precórdio, nessa região do peito, do tórax anterior, palpitação, formigamentos nas mãos, entorpecimento da sensibilidade no tato, suor aumentado, medo de estar tendo um infarto, um ataque cardíaco, muita ansiedade, falta de ar.

O que mais? São isso. Quanto tempo? Ah, é um início súbito e muito intenso. Tem que ser um início súbito. E vários outros sintomas que podem também ser de vertigem, o que lembra uma labirintite. Você pode ter um ataque de pânico mais intestinal, e aí você tem uma diarreia ao invés dessa sensação de falência cardíaca. E alguns outros sintomas.

Basta ter o ataque de pânico para pessoa ter um transtorno?

Isso, muito bem perguntado. Claro que não. Você tem esse mal-estar súbito, essa sensação de ou de ataque de coração iminente, ou de perda de consciência, ou perda de, perda do controle mental, não é?

E isso é recorrente, e você precisa nesse posterior ao ataque, fica, mudar o seu comportamento de forma a evitar ou ficar apreensivo pela possibilidade de um novo ataque de pânico. E isso configura o transtorno do pânico, que tem múltiplas causas e que pode, no mais das vezes, você ter vários ataques desse tipo que eu descrevi.

 

Ataque de pânico pode desencadear o transtorno?

 

É possível, é frequente que a pessoa, a partir do primeiro ataque, desenvolva essa parte de evitar situações que se assemelhem àquela que ela não aguentou?

É frequente, sim. Algumas pessoas têm ataques isolados, né? Mais ou menos 10%, 11% da população americana já teve ataque de pânico, o ataque, não o transtorno, uma vez ou outra na vida. Todos nós podemos ter, qualquer um de nós.

Uns têm mais propensão a ter essas crises, que é do sofrimento dos piores sofrimentos do ser humano, das piores vivências que a gente pode ter, é muito assustador. E outros têm a recorrência disso, configurando aí o ataque de pânico, o transtorno de pânico.

Sim. Eu tinha visto, até para a gente deixar bem claro, que são alguns elementos que configuram e definem mais como um transtorno de pânico. Eu sempre vi aparecendo muito, durante a pesquisa, essa ansiedade antecipatória e a esquiva ou evitação fóbica, né? O senhor pode explicar rapidamente?

Claro, claro. Ansiedade antecipatória é o nome técnico do que eu tentei descrever, de que a pessoa fica num estado de ansiedade, de tensão, na expectativa de um próximo ataque, que é muito assustador. E isso é a ansiedade antecipatória.

O segundo item é esquiva. Exato, esquiva. A pessoa passa a evitar lugares, alimentos, situações aonde teve aquele ataque de pânico inicial, na esperança de não tê-lo mais, né? Por exemplo, de ficar preso num trânsito, ambientes fechados ou muito amplos, e por aí vai.

 

Fatores de risco para o pânico

 

Sim, legal. Doutor, apesar da gente sempre, quando vai falar do transtorno, colocar eles como algo súbito e inesperado, eu encontrei pelo menos um estudo que mencionou que muitos pacientes relataram algum agente estressor importante nos 12 meses anteriores ou num período relativamente curto antes desse primeiro ataque. Isso é realmente comum ou é um estudo meio pontual?

Não, realmente você tem alguns fatores de risco ou fatores predisponentes para o ataque de pânico. Um deles são acontecimentos na vida de alto impacto negativo.

Existem outros fatores predisponentes, como abuso físico, psicológico, sexual no passado, você ter uma personalidade ansiosa, um jeito muito ansioso de ser desde sempre. Você ter histórico familiar, isso é muito frequente, existe uma genética, né, que te predispõe para o transtorno do pânico. Então outros parentes de primeiro grau com esse problema.

E há pessoas que são, são os fatores que te levam a ter pânico. Ainda com maus hábitos de vida, o fumante, por exemplo, tem mais chance de ter. O usuário de droga tem mais chance de ter transtorno, drogas quaisquer, transtorno do pânico e doenças endócrinas, hipertireoidismo, feocromocitoma, tumores de paratireoide, tem uma série de pessoas com arritmia, epilepsia, algumas formas de epilepsia, epilepsia parcial complexa, que levam você a ter ataques.

Entre esses eventos, doutor, que são relatados como com grande impacto negativo, existem alguns que são mais comuns?

Olha, eventos ansiogênicos de alto impacto negativo, não é? Comuns, você, por exemplo, tá com doenças físicas que te deixam muito ansioso, tudo que te deixe mais ansioso tende a, e preocupado, altamente preocupado, ou sentindo uma ameaça iminente, pode te predispor a ataques de pânico. Você tem exemplos na sua pesquisa para me dar? Eu posso comentar.

Eu vi algumas coisas que elas eram um tanto comuns, mesmo, e muito cotidianas para qualquer pessoa, por isso que me chamou a atenção. Algo como simplesmente um trabalho novo que te exige mais ou a morte de um familiar. Por mais que ela seja um impacto muito negativo, a morte de um familiar, todo mundo vive isso muitas vezes ao longo da vida, né?

E aí eu fiquei pensando, será que uma coisa tão simples e tão comum, mesmo que seja muito negativa, realmente pode ser a fonte de um ataque de pânico?

Na verdade isso, a má notícia de impacto negativo, interage com a sua predisposição para isso.

E aí você, por exemplo, só para te dar um exemplo, pacientes com asma, com doença pulmonar obstrutiva crônica, que já não respiram bem, que ficam ansiosas quanto à capacidade de respirar, de oxigenar o próprio organismo. Têm uma crise ansiosa, já ficam preocupadas, ansiosas e ainda usam a bombinha para o vasodilatador dos brônquios, que por si só pode desencadear pânico e já é de base uma pessoa muito ansiosa, quer dizer, é uma confluência aqui de 3 fatores, um farmacológico, um psicológico, um situacional, levando à eclosão de um ataque de pânico.

Certo, é como sempre a conjunção de vários fatores, né?

Exato, na nossa área é assim.

Sim. E quanto a grupos mais vulneráveis, o senhor mencionou alguns, né, ou por fatores de risco como uso de substâncias, né, mas existe algo relacionado mais à idade, gênero?

É, bem lembrado. As mulheres são 2 vezes mais predispostas a terem ataques de pânico a partir da adolescência. E depois dos 40 vai ficando menos frequente o surgimento do transtorno do pânico. No mais das vezes surge entre 20 e 25 anos. É quando você tem o maior número de pessoas iniciando o transtorno do pânico na vida deles.

Mas eu já vou te adiantar, porque eu já tive paciente idoso com história prévia e que depois dos 60 anos, depois de vários anos tratando da doença, não relatava mais sintoma algum. Um caso, o que é possível, de remissão total dos sintomas do transtorno do pânico na terceira idade. Isso até é possível.

 

Como se explica o pânico?

 

Eu cheguei a ver algumas tentativas de explicar a hipótese do mecanismo mesmo do transtorno do pânico, no que se relaciona assim a uma interpretação exagerada de algo, e aí o cérebro processa aquilo e aquilo vai se avolumando junto com sintoma físico, piora ainda mais. Existe alguma explicação que hoje é mais aceita ou deve ser isso?

Ah, sim, né? Você tem os pânicos biologicamente induzidos e os ataques de pânico cognitivamente induzidos. Não é? E é muito frequente você, com seus próprios pensamentos, aumentar sua ansiedade basal cada vez mais até a eclosão de um ataque de pânico.

E a pessoa que passou por um ataque de pânico espontâneo, não cognitivamente induzido, pode passar a ter uma vulnerabilidade cognitiva para a recaída em outros ataques de pânico. Sim, sim. Muito apreensiva.

E isso mostra, por outro lado, não é, que os pensamentos que você tem podem tanto piorar um transtorno do pânico como melhorá-lo, se você consegue corrigir com psicoterapia essa cascata automática de pensamentos ansiogênicos. Sim, que existe com muita frequência no transtorno do pânico nas pessoas, né?

Tem um livro que eu uso bastante porque ele traz alguns casos clínicos, mas muito resumidos, mais para ilustrar. E aí, num deles, ele mencionava meio en passant, mas eu vi também em outros lugares. Então essas coisas começam a aparecer em fontes diferentes, eu falo “ah, talvez isso seja algo, vamos confirmar com alguém”.

Que seria que é comum encontrar pessoas, que são mais jovens adultos, com algum ataque ou um transtorno de pânico, e que depois se vê que ele tinha um transtorno, algum transtorno desde a infância, e que isso poderia ter sido diagnosticado ou observado com um pouco mais de atenção. Que fossem traços de ansiedade, digamos, na infância. Existe algo realmente nesse sentido?

Sim, sim. Pessoas muito socialmente inibidas, muito sensíveis a situações que gerem ansiedade, crianças, não é? Tem até um trabalho, uma pesquisa de um programa de tratamento de prevenção do pânico, nos Estados Unidos chamado Cool Kids. E isso mostrou algum efeito protetor, né? Tanto para o surgimento de depressão na idade adulta como para prevenção do transtorno do pânico.

São crianças muito ansiosas em provas, em situações de desempenho, e muitas vezes também muito superprotegidas pelos pais. Então os pais, as mães precisam também passar por essa orientação, essa terapia específica, para não aumentarem a chance do filho ter depressão e transtorno do pânico no futuro. Algum efeito protetor foi comprovado com esse programa.

 

Preparo dos profissionais de saúde para reconehcer

 

Sim. E, doutor, o senhor trabalha num pronto atendimento, né? E pelo que eu vi, o histórico dos pacientes com transtorno do pânico é uma peregrinação, né? Eles vão muitas vezes a emergências ou pronto-socorros, como o senhor deve atender bastante. E depois é aquilo que a gente falou na introdução, né? Não se encontra nada realmente em exames cardíacos, nada assim, e a própria pessoa demora para acreditar, né, que ela possa ter algo que seja puramente psiquiátrico.

Pela experiência do senhor, os profissionais que atendem em pronto-socorro têm um conhecimento sobre essa possibilidade ou ainda é muito precário no Brasil?

Ah, se nós pensarmos a nível nacional, é óbvio que os clínicos estão menos preparados, os cardiologistas mais, e os psiquiatras estão preparados para isso. Hoje não é, não se concebe um psiquiatra que não consiga fazer esse diagnóstico.

Agora, o grande problema que eu vejo é o clínico, cardiologista ou não, e às vezes até psiquiatra, se contentando em melhorar sintomas com a prescrição apenas dos benzodiazepínicos, que são os tarja-preta, os Lexotans, Valiums, que trazem um alívio no curto prazo, mas no longo prazo, usados cronicamente, vão complicar e muito o problema do transtorno do pânico.

E então é muito frequente você ver em pronto-socorro, principalmente em pronto-socorros onde os profissionais são menos treinados, né, menos preparados, e nesse Brasil grande é muito frequente, mesmo em São Paulo, você vê pacientes atendidos e tratados apenas, descartado o problema cardiológico, tratados com o tarja preta apenas, né.

Outro nível de erro de tratamento são inclusive psiquiatras se tratando com os antidepressivos que têm ação ansiolítica também, não viciam, né, como os tarja-preta viciam. E você encontra pacientes tratados por psiquiatras na cidade de São Paulo, pacientes usando cronicamente o antidepressivo, que é correto, combinados com tarja-preta.

E isso é, enquanto tarja-preta, isso é muito importante ser falado, for necessário para o controle dos sintomas, há um problema com esse tratamento. Ele precisa ser revisto. O tarja preta é necessário, seria um erro não prescrever no início do tratamento, nas primeiras semanas, mas o uso prolongado, ele até por psiquiatras é erradamente prescrito junto com antidepressivo, que é o remédio correto.

Sim, sim, sim.

É um erro frequente.

 

Tratamento do transtorno de pânico

 

E já entrando, era justamente a próxima, que o senhor desse primeiro uma geral sobre tratamento. Em que consiste um tratamento tradicional hoje?

Nós temos, em primeiro lugar, é um quadro muito agudo, de muito sofrimento, o tratamento farmacológico no início ele é primordial, né, aonde você tenta aliviar os sintomas ansiosos com o benzodiazepínico e associar muito gradualmente um antidepressivo inibidor de recaptura de serotonina, principalmente, né, para você ter como objetivo a remissão completa dos sintomas, feito o diagnóstico de transtorno do pânico.

Em paralelo com isto, você tem que verificar se o paciente apresenta alterações comportamentais sérias de evitação de lugares, situações, que é o que nós chamamos de, que levariam a pânico, que nós chamamos de agorafobia, não é? Que é muito frequente vir junto com o transtorno do pânico.

A pessoa não tem mais os ataques de pânico, mas ela ainda evita muitas situações. Alguns dos casos graves nem saem de casa mais, né? Isso são casos raros, mas isso aonde você, a pessoa fica completamente prejudicada, né, nesse caso extremo.

Agora, existem outros que saem de casa e não têm mais o ataque de pânico, mas evitam uma série de situações, se prejudicam profissionalmente, viagens de avião não fazem e não saem da cidade ou não saem do seu bairro e perdem, têm um prejuízo muito grande na sua vida, na sua qualidade de vida. Isso pelo lado farmacológico, né? E aí isso precisa ser tratado.

Agora, em casos assim, você precisa associar, em todos os casos de transtorno do pânico, um aconselhamento, uma orientação do que ele tem, de como isso funciona, de que isso é um falso alarme de que há um perigo iminente na vida dele, para ele descatastrofizar a maneira como ele encara e pensa o problema que ele tem.

É uma distorção cognitiva que precisa ser corrigida e a melhor terapia, aonde há mais pesquisa indicando ajuda e melhora dos quadros clínicos, indica que a psicoterapia cognitivo-comportamental é a mais eficaz no curto prazo, inclusive para trazer alívio de sintomas e ajudar o paciente a ter uma postura de enfrentamento daquelas situações que geram nele tanta ansiedade que o predispõe ao ataque de pânico. Então é muito importante muitas vezes você associar esse tipo específico de psicoterapia. Bom, podemos depois falar um pouco sobre isso.

Sim, eu queria só voltar um pouco à parte dos medicamentos, doutor, porque eu fiquei um pouco em dúvida. Qual, com que frequência que uma pessoa pode ter ataques, digamos, enquanto ela não for diagnosticada?

Ah, é muito variável. Tem pessoas que têm um ou dois, tem pessoas que têm toda semana, tem pessoas que têm ataques reentrantes, que é um seguido do outro, e é extremamente variável.

Ela pode ter assim, um por mês?

Pode ter um por mês, tranquilamente, e dormindo inclusive, né?

E agora uma coisa muito importante que nós precisamos falar aqui é a frequência com que ataques de pânico acontecem em outros transtornos psiquiátricos, como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e fobia social, uma série de diagnósticos de transtornos que têm no seu quadro clínico ataques de pânico.

E às vezes que são tão frequentes que você dá os dois diagnósticos para pessoa, por exemplo, no mais frequentemente, é depressão e transtorno do pânico juntos. Ou você tem que pode acontecer ao mesmo tempo, ou primeiro vem o transtorno do pânico e depois vem a depressão.

E por sinal, presença de ataques de pânico nos transtornos depressivos tem, podem ser muito bem tratados, mas exigem no mais das vezes doses mais altas de antidepressivos, leva um pouco mais de tempo para entrar em remissão completa. E essa é a meta do tratamento psiquiátrico dos estados ansiosos e transtorno bipolar, transtorno depressivo, é a remissão completa dos sintomas, o desaparecimento de todos os sintomas. Enquanto isso não acontecer, o tratamento precisa ser modificado, otimizado, tendo isso como objetivo.

E tendo em vista que o intervalo entre ataques pode ser muito variado, como funciona a prescrição de medicamento nesse caso? É uma coisa que ela tem que tomar uso contínuo?

Contínuo, não do tarja preta. Nas primeiras semanas, os tarja preta precisam ser prescritos enquanto o antidepressivo, que é também ansiolítico, não está agindo. Ele demora algumas, de 10, 14 dias para começar a fazer o efeito. Então você precisa associar os dois, no mais das vezes, né, os dois remédios, duas famílias de remédios.

E aí é um contínuo, por a recaída, reincidência, né, dos ataques de pânico é muito comum. Então você, pessoas com transtorno do pânico precisam tomar por alguns anos no mínimo, né, esses, os antidepressivos, que são remédios muito seguros e são feitos para isso.

Eles estão no mercado aí há 60 anos e os vários tipos, uns são mais modernos, outros mais antigos, mas eles, há muita experiência de uso prolongado de antidepressivos. Isso é muito importante para a gente ter certeza da segurança do uso contínuo desses medicamentos.

Sim, sim, eles são, é uma classe de medicamentos que não são como o tarja preta, eu acho, mas eles ainda são bastante temidos pelos pacientes.

Ah, os pacientes, como eles não têm informação, eles têm muito receio, é muito frequente o receio de usar remédios desse tipo continuamente, mas como, e muitos param o tratamento, muitos pedem redução da dose e aí clinicamente você tenta, no tempo certo, reduzir e ver o que acontece, mas a gente vê com muita frequência recaídas, isso é bem frequente mesmo.

 

Terapia para transtorno do pânico

 

E aí voltando para a parte da psicoterapia, como é que ela funciona em linhas gerais para quem tem o transtorno de pânico?

Na verdade, alguns casos leves de transtorno do pânico você pode até tentar tratar sem remédio, só com a terapia cognitiva. E aí nós temos dois pontos importantes, né, porque o transtorno do pânico, o ataque de pânico, ele tem um componente físico onde você tem sensações físicas e tem um componente psicológico, cognitivo, que são os pensamentos distorcidos, ansiosos que o paciente tem.

E você, bom, essa é a parte cognitiva. A outra parte, a parte física, você tem uma estratégia dupla. Além de conversar com o paciente, dar dados de realidade, desfazer as crenças catastróficas que ele tem sobre o que é o que ele sente e pensa, você pode dessensibilizá-lo aos sintomas físicos que ele tem.

De que forma? Provocando nele, com o consentimento claro do paciente, alguns sintomas que ele tem durante o ataque de pânico. Eu vou dar exemplos para você. Você expõe ele, por exemplo, então no pânico você tem falta de ar, você tem tontura, palpitação, e aí você provoca com anuência do paciente esses sintomas com alguns exercícios.

Então, por exemplo, para ele reinterpretar o que é um ataque, uma taquicardia, uma palpitação. Então você faz ele subir um lance de escadas num nível de, provocando palpitação, num nível tolerável para ele, que ele perceba que nem todo aumento de frequência ou dispneia ou falta de ar, no caso pelo exercício, né, é ameaçadora. E você faz isso repetidas vezes de uma forma bem gradual junto com o paciente para que ele não encare mais uma palpitação como uma coisa ameaçadora.

Pacientes assim, é bom lembrar, evitam fazer atividade física, sedentários, morrem mais de infarto, né, porque eles evitam hábitos saudáveis de vida.

Dando outro exemplo, paciente que tem um ataque de pânico que simule uma labirintite, uma vertigem, aquela tontura giratória, você coloca ele para em torno de si mesmo bem lentamente, aonde ele sente, sim, aquele início do quadro, e o ajuda a não interpretar catastroficamente uma leve tontura que ele mesmo provocou. E por aí vai, né? É uma exposição que dessensibiliza ele e ajuda ele a reinterpretar as sensações físicas do pânico.

Cognitivamente, eu já comentei anteriormente, você tenta desfazer as crenças que ele tem. Por exemplo, ah, se eu ficar num lugar um pouco mais alto, eu vou ter um ataque de pânico. E aí você vai aproximando ele bem gradualmente a uma situação onde ele estará num ambiente mais alto e explica para ele, olha, isso é uma coisa conhecida, se chama transtorno do pânico, você já foi investigado por cardiologista, se fosse para ter um problema cardíaco já teria tido, é um falso alarme. Então você dá dados para ele não valorizar o ataque de pânico como ele valoriza, como uma evidência de ameaça.

Sim, sim.

Falsa evidência. E aí ele vai aos pouquinhos reinterpretando os sintomas físicos e não amplificando a ansiedade que ele já tem de base.

Sim. Na entrevista sobre o TOC que eu falei antes, com a Dra. Roseli, ela falou que às vezes a psicoterapia, dependendo da gravidade do paciente, ele tolera pouco também essa exposição àquilo que motiva o transtorno dele. Mas ela falou, nesse caso existem estratégias de você usar o medicamento para ele tolerar melhor a psicoterapia e assim ter um sucesso, mais sucesso no tratamento.

Também. É uma estratégia usada também para tolerar a exposição, a terapia comportamental de exposição dessensibilizadora.

 

Recomendações em caso de ataque de pânico

 

E, doutor, e quanto ao momento de ataque mesmo, supondo que a pessoa está em tratamento, mas teve um ataque, existe algo que se recomenda que ela possa fazer?

Além de reasseguramento dele de que se você estiver por perto, não é, de que isso vai passar, você pode prescrever os benzodiazepínicos de ação rápida, de absorção rápida, sublinguais, ou não, e isso traz um alívio sim rápido nos sintomas.

Sim, e a pessoa, além disso, orientação do tipo não hiperventilar, por exemplo. Então a pessoa pode, durante o ataque, achar que tá com falta de ar, principalmente as mulheres, e não ficar respirando rápido, colocar a mão no abdômen, respirar lentamente pelo abdômen, não pelo tórax, e lentamente porque a hiperventilação você abaixa muito, você se intoxica com oxigênio, né? E isso gera tontura, sensações de desrealização, de que não tô reconhecendo meu corpo, são outros sintomas do ataque de pânico.

E aí entra naquela espiral negativa de interpretações e pensamentos que pioram mais o quadro, que tornam ele tão ameaçador, a ponto de que algumas pessoas têm um ataque, bem educadas, né, orientadas, elas às vezes têm um ataque de pânico e não valorizam mais, espera passar. Isso enquanto antidepressivos não com eles, né?

Sim, claro. E isso também vale para quem esteja por perto e consiga reconhecer?

Claro, isso é importante também, uma orientação das pessoas próximas, né, para auxiliar o paciente, principalmente no início do tratamento, onde ele certamente vai ter ainda ataques de pânico enquanto os remédios não forem corretos, não forem encontradas as doses certas.

 

Transtorno do pânico tem cura?

 

Legal, doutor. E ele, como o senhor mencionou, o caso de um paciente mais idoso que teve remissão completa. A remissão costuma acontecer nessa idade, mesmo?

Veja, é raro. Eu vi um paciente relatando isso, né? O ataque de pânico, à medida que a idade evolui, e a partir dos 40, 50 ou 60, ele é menos valorizado, as reações são mais atenuadas, né? O sistema nervoso autônomo, que regula a frequência da respiração, frequência respiratória, o batimento cardíaco, ele fica, ele envelhece também. Então ele reage de uma forma mais, menos intensa do que no jovem. Entendi, entendi.

Uma serenidade da velhice.

É uma senescência, né? A velhice melhora alguns problemas. A impulsividade, que não tem nada a ver com transtorno do pânico, também diminui com a idade. Sim. Muitas coisas diminuem, inclusive as coisas ruins, né?

Sim. E isso é uma interpretação para a gente ver que o pânico é menos perturbador até inexiste na terceira idade. Mas eu não conheço na literatura nenhum dado sobre o transtorno do pânico na terceira idade, porque não é problema, né? Raramente é um problema, então não é objeto tanto de estudo.

Mas significa que em geral a remissão acontece antes ou não?

A pessoa, a remissão do, com tratamento, a grande maioria dos casos, na grande maioria dos casos, você tem remissão completa dos sintomas. Jovens, né? Com o tratamento adequado, nos jovens ainda. Sim, isso é o tratamento correto. Sim, é um transtorno que tem um tratamento bem eficaz, bem eficaz, como a depressão, né?

E ele é importante também dizer, nós estamos falando tantas coisas importantes do pânico, muito pensando no sofrimento, mas tem duas situações importantes. Transtorno do pânico é um fator de risco para suicídio, né? E ele, ainda mais se houver depressão junto, é muito comum você ter um estado depressivo e um transtorno do pânico ou ataques de pânico.

Isso aumenta mais a depressão por si só, já aumenta algum, a chance de suicídio numa minoria de pacientes, mas com ataque de pânico isso aumenta mais ainda, né? E então isso é a mesma coisa para o transtorno bipolar. Então é um fator, é uma questão a se considerar muito, né? Sempre na frente de um caso de transtorno do pânico, assim como depressivo, transtorno bipolar, você tem que sempre perguntar se a pessoa pensa em morte.

Em geral, no ataque de pânico, o paciente tem medo de morrer, mas quando ele está há muito tempo sofrendo, à mercê desses sintomas, acreditando na veracidade deles, o paciente fica realmente cansado, sabe? E aí há risco mesmo. E pacientes não tratados, né?

A outra questão importante com relação à sobrevida, né, é que o paciente no transtorno do pânico, você tem mais chance de ter infartos, não naquele momento, mas no futuro, né? Assim como na depressão, transtorno bipolar, eles têm, há uma relação aí entre cérebro e coração, né? O que faz bem para o coração faz bem para o seu cérebro, que faz bem para o seu cérebro costuma fazer bem para o seu coração também.

Ou também, e também tem o fator que o senhor mencionou de ficar muito sedentário por medo, por medo da atividade física, ou agorafóbico que não vai no médico, né, ou depressivo que tá desanimado e sem iniciativa, ele se abandona e descuida do seu próprio, dos seus hábitos, né, do seu próprio cuidado com a saúde, fumam mais, né, e aí vai, né?

 

Diagnóstico e gatilhos do transtorno do pânico

 

O Dr. Montezuma comentou que demora (no caso dele a gente estava falando sobre transtorno bipolar). Ele falou que demora anos até a pessoa ter o diagnóstico correto.

5, 10 anos para o diagnóstico.

No caso de um transtorno de pânico acontece isso? De anos sem um?

Olha, como ele é muito dramático, eu não tenho esse dado para te dar precisamente, mas como ele é muito dramático e é uma coisa muito assustadora, o paciente, a família e os médicos se movimentam muito para esclarecer o problema, não é?

Então eu imagino que você possa ter um diagnóstico mais precoce, embora eu já tenha visto pacientes com transtorno crônico, né?

A gente mencionou alguns fatores de risco, mas eu acho que a gente não… Você mencionou gatilhos para o ataque. Existe algo assim ou não?

Ah, existem vários gatilhos situacionais, né? Aquelas situações aonde o paciente atribui um poder de desencadear crises de pânico, né, na memória dele, né? Falamos de remédios que podem desencadear, gatilhos situacionais estar parada no trânsito e não poder sair para ter ajuda, ambientes fechados ou estádios de futebol, ambientes muito amplos e abertos.

Porque como o senhor mencionou que é possível acontecer no sono. Assim, não é possível que a pessoa vai passar a mencionar que o sono é um gatilho para um ataque.

Eu já vi pacientes com medo de dormir, viu? Já, mas dormem, né? Dormem, geral tomam comprimidos para dormir, tem ataques. Agora, mesmo no sono, a gente não sabe o que o paciente está sonhando, né? E talvez sonhando ele possa ter sonhos ansiogênicos, né?

Esse é o mecanismo do… mas tem, existem, sem dúvida, mesmo acordados, existem ataques completamente espontâneos. A pessoa tá muito tranquila fazendo outras coisas e subitamente é um raio, é o tal raio no céu azul, né? E tem um ataque de pânico, é muito perturbador. É o que eu posso dizer sobre fatores.

É bastante aleatório, então. Não necessariamente ela tá numa situação…

Muitas vezes é, ou muitas vezes é bem aleatório. Outras, não.

Doutor, muito obrigado pela sua entrevista. Como eu falei antes, a gente tá buscando fazer um programa sobre cada transtorno principal, mas no futuro a gente planeja fazer programas mais específicos debatendo contexto social, algumas coisas assim, um pouco mais do que o transtorno em si.

Espero poder contar com o senhor para trazer os temas que o senhor gosta de abordar, também. Muito obrigado.

Será um prazer, muito obrigado também, Fujita.

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