TOC | Podcast #03

 

Apesar de aparecer em filmes como algo engraçado, o TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) pode ser altamente incapacitante. Ouça no podcast.

O TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) é muitas vezes visto como uma “mania” engraçada. Existem até filmes de comédia como “Melhor é impossível, que contam com personagens que fazem rir com rituais sem sentido dos quais não conseguem escapar.

Na realidade, porém, o transtorno tem potencial para ser um dos mais incapacitantes da psiquiatria. Imagine que você simplesmente não consiga sair de casa sem apagar e acender as luzes um determinado número de vezes, pois sente que, se não o fizer, algo catastrófico irá acontecer. Como você viajaria e passaria a noite em um hotel, sem acesso a sua casa para cumprir o ritual?

Conversamos sobre o assunto com a dra. Roseli Gedanke Shavitt, diretora do Programa dos Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Ouça e siga o podcast!

 

Transcrição completa do episódio

 

Luiz Fujita Junior — Olá, eu sou o Luiz Fujita, editor do site Drauzio Varella, e esse é o nosso podcast sobre questões psiquiátricas. E o tema de hoje é o TOC, transtorno obsessivo-compulsivo. Pra falar com a gente está a professora Roseli Gedanke Shavitt, que é diretora do Programa dos Transtornos do Espectro obsessivo-compulsivo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Como eu falei, né, comentei antes da entrevista, a gente gravou o primeiro sobre suicídio. E ao escolher esse segundo tema como o TOC, eu acho que muita gente pode achar que é um tema para desanuviar um pouco, porque é um transtorno até que pode ser considerado engraçado, pelo que eu já vi, que as pessoas que têm esse transtorno, os sintomas que ele apresenta. Então eu queria só contextualizar um pouco.

Pesquisando para essa entrevista, eu peguei uma publicação da OMS que chama Global Burden of Disease, que é o fardo que uma doença causa, né? E eles têm um indicador, chama DALY, Que é uma forma de tentar dimensionar o quanto uma doença é um fardo na vida de uma pessoa. E o TOC, apesar dessa ideia que a gente tem meio de engraçada, por ver em filme e tal, ele supera algumas outras que pra gente parecem mais graves, né? Como síndrome do pânico, insônia, Parkinson e até esclerose múltipla. O TOC está acima. Então eu queria que você tentasse dar uma ideia do quão grave é o TOC em comparação com as coisas que a gente acha que ele é?

Roseli Gedanke Shavitt — Então, eu acho que é importante dizer que existem múltiplas intensidades desse quadro clínico. Nós que estamos num hospital, né, que é um nível de atendimento terciário, nós temos um viés, né, aquele grupo de pacientes que chegam a nós é o grupo mais grave, mas é importante dizer que existem casos mais leves que às vezes nem procuram atenção médica. Essa estatística Global Burden of Disease, eles falam em termos de dias perdidos, dias de trabalho perdidos por causa do transtorno. E realmente é uma interferência, uma incapacitação muito grande que esses casos mais graves apresentam.

Quando a gente vê coisas mais de humor nos filmes, nas peças de teatro, eu acho que o lado que permite o humor é o fato da pessoa ter consciência de como aqueles sintomas não fazem sentido, como aqueles pensamentos, aquele tempo excessivo gasto com rituais, com comportamentos repetitivos, a pessoa ter consciência daquilo, do absurdo daquilo, e não conseguir se comportar de uma maneira diferente, pelo menos não espontaneamente, sem ajuda profissional. Então eu acho que é essa característica de absurdo que dá material para coisas de humor. Só que para a pessoa que vive aquilo, ela não vive com muito humor. Muito pelo contrário, acho que vive como uma escravidão.

 

Obsessão e compulsão

 

Pegando o nome do transtorno, o que é uma obsessão e o que é uma compulsão?

Então, uma obsessão, um pensamento obsessivo, pode ser pensamento, pode ser imagem repetitiva, pode ser preocupação, medo, que ficam voltando na consciência da pessoa sem que ela queira pensar naquelas coisas. Ela tenta afastar da consciência e não consegue. E em geral, traz um desconforto, uma ansiedade muito grande. E essa ansiedade, esse desconforto, eles vão ser aliviados pela realização dos comportamentos repetitivos. Esses comportamentos repetitivos é que são as compulsões.

Poderia dar alguns exemplos de alguns comuns?

Sim, um muito comum é a preocupação excessiva com contaminação por sujeira ou germes, ou secreções, então sangue ou qualquer imagem que sugira que por ali passou um sangue, né? E os comportamentos aliviadores, né? As compulsões de limpeza e lavagem. Um outro tipo muito comum de sintoma é uma preocupação exagerada com causar dano a alguém. E daí uma infinidade de rituais que a gente muitas vezes não entende qual a conexão, mas que a pessoa acredita que realizando um comportamento X daquela, de uma determinada maneira, ela vai impedir que uma coisa ruim aconteça para um ente querido. A gente chama isso de pensamento mágico, porque realmente não existe uma explicação racional para eu colocar esse copo um pouco mais para cá, porque assim nada ruim vai acontecer para uma pessoa que eu amo.

E a própria pessoa sabe que isso não tem conexão?

A própria pessoa sabe, mas ela fica extremamente desconfortável enquanto ela não faz o ritual do jeito que parece ser o certo. Para evitar o acontecimento ruim. Um terceiro tipo muito comum é a preocupação excessiva com simetria. Simetria, ordenação, arranjo dos objetos de uma determinada maneira e os comportamentos de ordenação, arrumação excessiva. Um outro tipo são pensamentos de cunho sexual ou religioso. Então a pessoa tem um medo de gritar num templo, numa cerimônia religiosa, tem medo de xingar Deus, de ter pensamentos blasfemos e rituais de rezar excessivamente, fazer sinais religiosos repetitivamente.

Com relação à temática sexual, são preocupações de ter cometido um ato incestuoso ou de ter o impulso de cometer um ato incestuoso. E aí nem sempre os comportamentos repetitivos são observáveis, mas a pessoa começa a se esquivar de situações que podem gerar aqueles pensamentos. Então, um paciente meu que não trocava a fralda da filha bebê, porque quando ele ia trocar a fralda, ele tinha um pensamento de que ele poderia cometer um ato agressivo, violento, de natureza sexual com a própria filha.

E daí a gente tem, por fim, sintomas de acumulação, que atualmente, quando só tem o problema da acumulação, então são pessoas que acumulam objetos inúteis, que não têm valor sentimental, não é uma coleção como de um colecionador, é um acúmulo mesmo, porque tem um grande desconforto de se desfazer das coisas e tem sempre aquele pensamento de que vai poder precisar daquilo no futuro. Quando esse é o único sintoma, atualmente isso está classificado num transtorno à parte. Atualmente a gente chama isso só de transtorno de acumulação patológica. Quando não é o único sintoma e tem esses outros tipos que eu falei, a gente chama de transtorno obsessivo-compulsivo com sintomas de acumulação.

Por isso que hoje então existe um conceito do espectro, porque existem algumas com similaridades que são colocadas num grupo maior.

Isso, e tem outros transtornos do espectro que envolvem, por exemplo, preocupação excessiva com alguma parte do corpo que pareça para a pessoa assimétrico ou imperfeito, e os rituais que acompanham são de verificação no espelho, muito tempo gasto por dia tentando acertar os fios de cabelo ou tentando fazer a maquiagem perfeita ou visitando consultórios de cirurgiões plásticos para fazer a correção para que fique perfeito e nunca fica a contento, né? Então esse é um exemplo de um outro transtorno do espectro.

 

De onde vêm esses pensamentos?

 

Sim. Professora, quantas pessoas a gente estima que tenha hoje no Brasil e no mundo?

Em torno de 2% da população é a estatística ao longo da vida, de ocorrência ao longo da vida.

E é tanto no mundo como no Brasil?

É, as estatísticas transcontinentais são muito parecidas. Tem um estudo só falando de uma incidência muito mais baixa em Taiwan, mas a gente não entende se isso é de fato uma diferença na frequência do transtorno na população ou se foi alguma metodologia que não pegou de verdade.

Existe uma idade média em que se começa a perceber esses sintomas aparecendo na vida?

Sim, no sexo masculino, em meninos, antes dos 10 anos é mais comum que comecem, então é uma doença da infância. E nas mulheres, o início dos sintomas é mais comum no final da adolescência, início da idade adulta. Então é uma doença de jovens, de início na idade jovem, muitos pacientes só chegam para uma avaliação já adultos, depois de 10, 20 anos de sintomas, mas é uma doença de gente jovem.

Sim, e professora, como você explicou, né, o TOC ele está muito relacionado a esses pensamentos que a gente não quer tê-los, mas eles aparecem, né? Mas esses pensamentos também acontecem em quem não tem TOC ou não se reconhece com o TOC, né?

Sim.

Então existe, o que se sabe hoje dentro da psiquiatria sobre o que são esses pensamentos, por que eles aparecem? Mesmo esses que a pessoa, que é um paciente seu, então imagino que ele tenha um diagnóstico, mas ele jamais faria aquilo que ele tem medo de fazer, né? Mas existe algo que explique, a gente sabe algo sobre isso?

Então, sim, graças ao avanço das metodologias nas neurociências, hoje é possível estudar o cérebro de portadores de TOC de acordo com várias técnicas de neuroimagem, e essas técnicas podem mostrar o cérebro em repouso, pode mostrar o cérebro respondendo a um certo tipo de estímulo. Então, hoje a gente tem assim um mapa ainda grosseiro, mas um mapa de quais estruturas cerebrais estariam envolvidas na produção desses sintomas. E é assim, falando de um jeito bem, bem, bem simplificado e grosseiro, é como se o TOC correspondesse, as obsessões correspondessem a uma falta de filtro no cérebro sobre o que é importante e o que não é importante para ganhar acesso à consciência. Então, é como se uma estrutura do cérebro que tivesse que fazer esse papel de filtro não estivesse funcionando.

Então, quando a gente veste uma roupa, a gente pode ter no início, nos primeiros instantes depois de vestir a roupa, a gente pode ter a consciência da etiqueta encostando na nossa pele. Depois de alguns segundos, a etiqueta continua lá, mas a gente não está mais lembrando que ela está encostando na gente, porque tem uma inibição. Quer dizer, não serve para nada a gente ficar pensando o dia inteiro que a etiqueta está encostando na gente. Então é como se no TOC essa inibição não acontecesse e pensamentos inúteis ganhassem acesso à consciência de uma maneira doentia, vamos dizer.

 

Cultura e história pessoal influenciam?

 

Sim, sim. Professora, como você mencionou antes, tem um livro que me ajudou muito, né, que está aqui na nossa mesa, “O Homem que Não Conseguia Parar”, do David Adam, da Editora Objetiva. E ele é um jornalista de uma revista científica e também tem TOC, né? E no caso dele, o medo era de pegar o HIV. Então ele conta um pouco e fala bastante da ciência em relação ao TOC. E ele tem uma parte que é muito interessante, que ele fala: é interessante que as obsessões do TOC sempre são desagradáveis. Ninguém tem uma obsessão em ser gentil com as pessoas, nada assim.

E também tem uma parte em que ele fala que os TOCs têm relação com a sociedade em que o paciente vive, em alguns casos. Então, os países em que são muito religiosos, é mais comum ter TOCs relacionados a rituais daquela religião, né? O quanto que o fator ambiental hoje, né, sabe-se que influencia no TOC?

Então, eu não acho que tenha estudos suficientes para explorar o papel da cultura, né? No conteúdo que cada sujeito vai manifestar. Inclusive, a gente está começando um estudo transcultural que pretende responder isso, né? O que provavelmente a gente vai encontrar é que a biologia do transtorno é bem constante ao longo das culturas e através dos continentes, mas o conteúdo dos sintomas vai estar relacionado com algum aspecto ou da história do indivíduo ou da cultura onde ele está inserido.

Eu não conheço estudos que tenham se aprofundado nessa questão suficientemente para a gente dizer, mas a gente sabe que o TOC tem na zona urbana, tem na zona rural, tem nas pessoas com nível socioeconômico mais alto e mais baixo, então é um problema que afeta mesmo globalmente, todas as comunidades.

E quanto à história de vida de cada paciente, tem algo?

Tem, tem, tem desde complicações no nascimento até experiências traumáticas na infância e mais tarde como fatores de risco. Não são fatores necessários e suficientes para manifestar o TOC, mas são fatores que aumentam o risco. Tem uma série de estudos aí de genética tentando equilibrar o quanto que é a genética que predispõe, o quanto que é o meio ambiente, em que momento que essas coisas se somam para culminar no aparecimento do transtorno.

Então, tem muita coisa sendo investigada, não tem resultados conclusivos ainda, mas as pessoas estão tentando responder essas perguntas. Quer dizer, uma vez que a pessoa tenha uma vulnerabilidade genética, o que define o momento em que o sintoma vai aparecer?

Sim.

Então, é complexo isso.

 

Diagnóstico do TOC

 

Esse surgimento dos sintomas, professora, como a gente falou, o TOC é conhecido por algumas representações e é comum no dia a dia a gente, ou a gente acha que a gente tem um pouco porque a gente tem algo que parece com TOC. Como é que se faz quanto ao diagnóstico? A separação é puramente muito extrema e até eu veria que esse TOC é grave, patológico, ou onde fica essa margem entre uma coisa que é subclínica, não precisa de tratamento, e uma outra que precisa?

Na verdade, existe um contínuo, né? Você tem assim, num extremo da reta, você tem sintomas obsessivos esporádicos, né, que estão frequentes talvez em 30% da população que não tem nenhum transtorno psiquiátrico. Então você pode ter, na hora de dormir, gostar de ir com a água no copo até esse nível, porque você gosta, você se sente bem assim. Se você puser menos, parece que está faltando, se você puser mais, parece que passou. Então, todo mundo tem um certo método para fazer as coisas, um certo hábito, né?

Quer dizer, todo mundo não, mas muita gente tem. Talvez um certo apreço pelos cabides voltados todos para o mesmo lado, talvez gostar de guardar as roupas num degradê de cores, ou são sintomas, né? Mas não atrapalham a pessoa, não fazem com que ela perca tempo, não interferem na funcionalidade, não traz nenhum tipo de sofrimento, de incômodo. São hábitos, né?

Mas que a gente pode entender também como uma manifestação obsessiva ou compulsiva. Mas isso vai ser, assim, sempre e não vai ter nenhuma implicação na vida daquela pessoa. Então esse é um ponto. Aí você vai andando um pouco mais nessa reta e aí a pessoa pode ter um pouco mais do que um copo de água na hora de deitar, os cabides, o jeito de preparar comida, o jeito de querer que, enfim, que as coisas estejam organizadas em volta. Quando vem alguém limpar, não gosta que as coisas fiquem fora do lugar, aí já gasta um tempinho para arrumar. E ainda assim a pessoa não sofre com isso, não deixa de funcionar normalmente no seu dia a dia e não gasta um tempo excessivo, mas a gente já tem um pouquinho mais do que aqueles sintomas esparsos, raros, isolados.

E aí, a gente tem o transtorno mesmo obsessivo-compulsivo. Aí não é tanto a quantidade de sintomas variados, pode ser um único sintoma, né, de um único tipo daqueles todos que eu falei, só que este tipo de pensamento e as compulsões que ele precisa fazer para se sentir aliviado tomam muito tempo, claramente interferem na funcionalidade, então tem coisas que ele deixa de fazer porque ele tem que ficar fazendo rituais ou se atrasa, ou tem a performance no trabalho prejudicada porque está ocupado com os pensamentos e com rituais, ou tem problemas de relacionamento familiar ou conjugal porque aqueles rituais e aqueles pensamentos entram na questão do relacionamento. Então, em geral, assim, falando de um jeito simplificado, a gente sempre tenta avaliar quanto tempo da pessoa é sequestrado pelos sintomas, se tem ou não tem interferência no funcionamento cotidiano e se tem ou não um sofrimento associado.

Então é uma avaliação que recai bastante no próprio depoimento do paciente, o quanto ele…

O diagnóstico atualmente ele é fundamentalmente baseado na entrevista clínica.

 

TOC x Transtorno de Personalidade Obsessivo-Compulsiva

 

E professora, só pra gente desfazer ou confirmar uma informação que eu vi, porque a gente quando vai exemplificar usa bastante esses que muita gente tem medo de organização, simetrias etc. E eu li em algum lugar que existe até uma subcategoria que é específica para isso, mas que seria um diferente. Mas eu achei até uma sacanagem, porque o nome é muito parecido. Um é o transtorno obsessivo-compulsivo; o outro é o transtorno de personalidade obsessiva compulsiva. São realmente diferentes? A diferença só que ele disse é que um incomoda e o outro não, ele se sente bem sendo organizadinho e ajeitadinho.

É mais ou menos, né? Assim, o transtorno de personalidade, o que que acontece? A gente trabalha com um que é assim, que é ego sintônico e ego distônico. O que quer dizer isso? No transtorno obsessivo-compulsivo, a pessoa acha aquelas obsessões, os medos, as preocupações exageradas, acha aquilo bizarro. Não tem uma, não tem, a pessoa não se identifica com aquilo, né, e quer se livrar daquilo, só que não sabe como. O transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva tem algumas características que o sujeito apresenta e ele se identifica com aquilo. Para ele aquilo não é bizarro. Então, algumas características do transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva: hipermoralidade, preocupação excessiva com o certo e o errado, com viver de acordo com regras, se incomodar quando o vizinho não respeita as regras, querer garantir a aplicação das regras a todo custo, é uma característica.

Outra característica é a excessiva devoção ao trabalho em detrimento do lazer e da diversão. Então é aquela pessoa que enquanto todos os passos das tarefas que ele tem que fazer não estão satisfeitos, ele não se permite relaxar, se divertir. Uma outra característica é a rigidez do pensamento. Então é uma pessoa rígida, quer dizer que se é A, é A, se é B, é B, e não tem nada entre o A e o B. São pessoas que a gente chama cabeça dura, teimosas, às vezes até meio obstinados e tal.

Essas pessoas às vezes tendem a ser, têm dificuldade de delegar, então são pessoas centralizadoras. E junto com isso vem uma certa dificuldade de lidar com, de gastar dinheiro. Então, são pessoas que têm muita dificuldade de gastar, mesmo que tenham condições de, que provavelmente tem a ver com uma necessidade exagerada de ter controle sobre tudo, né?

Essas características, elas compõem o transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva. Então aqui a pessoa não acha que precisa tratamento. Os outros é que estão errados. Então os outros é que não estão vendo como o meu jeito de viver é melhor, mais certo, mais adequado. Então é bem diferente do TOC, porque no TOC a pessoa sofre, se incomoda, quer se livrar daquilo, não acha aquilo razoável, só que não consegue ter controle. E no transtorno de personalidade não.

 

Tratamento do TOC

 

Professora, no Brasil, como estamos em relação a tratamentos, né? Tem um caso que eu, nesse livro, até tem um pouco a ver com o caso que você relatou do seu paciente, que é quando a pessoa finalmente foi procurar ajuda porque ela tinha um pensamento obsessivo de violência com o filho ou a filha, a primeira coisa que aconteceu foi que ela foi separada da sua família porque o profissional achou por bem fazer isso como primeira medida. E as pessoas já chegam tarde, né, dificilmente reconhecem logo, né, que tem esse problema. Como estamos hoje, né, uma pessoa que decida ir procurar uma ajuda por conta disso, qual a chance dela ter um bom encaminhamento?

Olha, o que eu vou, eu vou basear a minha resposta na minha experiência desses 23 anos de atendimento no nível terciário, né, quer dizer, eu tô num hospital que é a última estação da linha. Então, o que eu posso te dizer é que a gente tem muita dificuldade de encaminhar pessoas para tratamento fora dos centros universitários. Então, eu acho que a gente não está bem no Brasil nesse sentido. Eu acho que a gente precisa multiplicar o conhecimento e formar mais pessoas que sejam capazes de conduzir tratamentos adequados em todos os níveis de complexidade da rede de saúde pública, né? Nível terciário, as unidades de saúde, as Unidades Básicas de Saúde, os ambulatórios de especialidades, quer dizer, é muito carente o tratamento nessa área.

Então, é muito difícil pra gente, a gente cuida de pessoas por um certo tempo, depois a gente precisa abrir espaço para novas pessoas serem tratadas, e é muito difícil a gente fazer um encaminhamento. Então esse exemplo que você falou de uma pessoa que como tratamento foi separado do estímulo, vamos dizer que isso é um antitratamento, porque eu não sei se a gente vai falar sobre tratamento ou não.

Sim, é onde a gente ia entrar já para finalizar o vídeo.

Então tá bom, mas essa era uma orientação que não podia ter sido dada.

É porque imagino que chegando num profissional que ele ouve que, ah, eu tenho medo de machucar minha filha, se a pessoa é completamente psicopata, não adianta.

Então, fica longe da sua filha. Isso é o antitratamento, é a última coisa que a gente tem que fazer. A gente tem que promover o enfrentamento.

Nesse livro que eu mencionei bastante, ele menciona alguns tratamentos que envolvem medicamentos e alguns que são terapias. E aí gostaria que você falasse um pouco sobre isso, professora.

A gente tem hoje bastante literatura apoiando a terapia cognitiva comportamental até como primeiro tratamento. Antes de medicamentos. Se a gente tem escalas para medir gravidade dos sintomas, essas escalas vão avaliar o tempo gasto com sintomas, a angústia associada com sintomas, a interferência, quanto que a pessoa consegue resistir aos sintomas e quanto que consegue controlar. Então, a gente tem uma medida da intensidade. Então, para TOCs leves a moderados, é recomendado o início do tratamento com terapia comportamental. E quando a pessoa não aceita a terapia…

Brevemente, a terapia comportamental envolve controlar, uma forma de controlar as compulsões?

Tem vários aspectos, cognitiva, comportamental, então é feito um inventário de todos os sintomas. Quando envolve pensamentos que exageram risco, pensamentos que exageram ameaça, que exageram o perigo, existem técnicas para a pessoa manejar esse exagero. Então tem toda uma tentativa de recontextualizar aquelas preocupações, os medos, fazer uma prova de realidade, falar sobre estatísticas, enfim. E paralelamente a isso, a pessoa é encorajada a enfrentar situações que ajudam os pensamentos obsessivos a virem e ficar na situação, não se esquivar, fazer o enfrentamento da situação e não fazer o ritual e aguentar aquele desconforto.

Esse desconforto também tem escalas para medir, né? E o que se observa é que com o enfrentamento repetitivo das situações, né, feito em condições protegidas, ou dentro do consultório ou fora do consultório, mas numa escala de dificuldade gradual que vai aumentando cada vez, esse incômodo da pessoa estar na situação que provoca ansiedade sem fazer o ritual, ele progressivamente vai diminuindo.

Quer dizer, aquela hipótese que a pessoa tem no pensamento de que se eu encostar a palma da minha mão na calçada e não lavar imediatamente, eu vou ficar doente. Conforme essa pessoa vai encostando a palma da mão na calçada e vai ficando 5 minutos no primeiro dia, daí pode lavar. 10 minutos no segundo dia, aí pode lavar a mão. 15 minutos no terceiro dia. O que vai acontecendo é que ela vai desenvolvendo uma aceitação daquela espera, até poder lavar a mão como qualquer pessoa lava, antes da refeição, quando chega da rua, por alguns minutos, enfim.

Isso simplificando bastante, né? Então a terapia cognitivo-comportamental vai trabalhar isso, quer dizer, os pensamentos, as crenças disfuncionais, que é o nome que se dá às obsessões, e a exposição sem fazer os rituais. Então essas são algumas das técnicas principais.

Professora, como a gente falou, esse programa, o meu interesse em criá-lo é principalmente… principalmente, não, mas um dos motivos é que todos os transtornos psiquiátricos são muito estigmatizados. Mesmo a depressão ,que é muito abordada, ainda assim é. Então, eu imagino que as pessoas sempre demoram para procurar algum tratamento profissional. Tendo em vista essa terapia, que pelo que eu vi, pelo que você falou agora, ela é bastante usada, uma pessoa pode usar isso como prevenção, caso ela avalie que alguma coisa está começando a incomodá-la e ela mesma fala, “putz, eu vou começar a resistir a essa compulsão”?

Com a orientação adequada, sim. Existem alguns livros que falam sobre esses exercícios, exercícios, vamos chamar assim, e que a pessoa pode ler sobre isso e pode tentar pôr em prática. É sempre bom ter uma orientação, mas sim, uma vez bem orientada, a pessoa pode fazer por conta própria. Existem muitos países no hemisfério norte que já adotam aplicativos que ajudam a pessoa a pôr em prática esses exercícios, essas técnicas, existem protocolos de terapia por internet, porque o que acontece, e aí isso acontece não só aqui, mas nos países desenvolvidos também, é que quanto mais distante de um centro universitário, menor a chance de encontrar um profissional que saiba trabalhar com essas técnicas. Então precisa, para isso poder se difundir assim em todas as comunidades, né, é muito importante ter esses mecanismos que funcionem à distância, né?

Sim, que a própria pessoa faz.

Com alguma orientação inicial, né? Enquanto a gente não chega num nível de disseminação do conhecimento que a gente consiga ter em pelo menos cada capital do Brasil um profissional que saiba trabalhar com isso.

Certo.

A Editora ArteMed, que também é conhecida como Grupo A, tem um livro para leigos, tá, que se chama Medos, Dúvidas e Manias. Ele dá um apanhado geral sobre o TOC, sobre os medos, enfim, sobre tudo isso que a gente conversou agora, mas em mais profundidade, e dá umas pinceladas nessa parte dos tratamentos. E tem um outro livro da mesma editora que se chama “Vencendo o Transtorno Obsessivo-Compulsivo”, que fala mais detalhadamente da terapia cognitiva comportamental, e ali tem dicas práticas mesmo, e é como um manual. Agora, eu acho que é sempre bom, antes da pessoa sair fazendo as coisas por conta própria, é ter uma orientação.

Sim, sim. A nossa ideia é que as pessoas procurem mesmo, se elas identificam algum início do que pode parecer esse tipo de transtorno, que não tenham medo de procurar algum profissional que ajude. E nesse sentido, a minha última pergunta, professora, é: o transtorno é uma coisa que progride? Ou seja, se ela não fizer nada, ele vai piorando ou ele pode estabilizar? Acontece os dois?

Tem vários, eu acho que tem vários fatores que podem fazer com que os sintomas vão se agravando ao longo do tempo, né? A maioria dos pacientes com TOC relata que o ócio, a falta de atividade, aumenta muito os sintomas. Então, um adulto que está empregado e tem TOC, ele pode piorar muito se ele perde o emprego, por exemplo. Que são situações que a gente vê na clínica. Então, às vezes não é só a passagem do tempo ou a pessoa ficar mais velha, porque isso pode ter flutuações, em momentos da vida a pessoa pode ter mais ou menos sintomas, mas acho que os eventos da vida, eventos emocionalmente significativos, tanto positivos quanto negativos, eles podem deflagrar uma piora dos sintomas.

 

Obras que retratam melhor o TOC

 

Legal. E professora, como a gente falou aqui, às vezes ele é muito mal retratado, existem filmes ou livros que você consegue indicar que são mais fiéis ao que realmente é esse transtorno?

Olha, eu acho que aquele filme com o Jack Nicholson, “Melhor É Impossível”, eu acho que é um filme que caracteriza bem. Eu acho que o personagem, ele dá muitos exemplos de diferentes sintomas. E eu acho que ele trata, eu acho que o personagem trata a pessoa com a doença com respeito. Eu acho que ali não tem exagero, não.

Sim, pode ser, existem quadros exageros.

Eu acho que sim, eu acho que sim. Tem um seriado antigo, muito antigo, que chama Monk, M-O-N-K, que também é um adulto com TOC. E, embora o seriado seja cômico, ele também passa por muitos apuros. Ele é um detetive, se eu não me engano, um investigador, e ele passa por muitos apuros no exercício da profissão porque ele tem fazer os enfrentamentos. E às vezes é engraçado, mas às vezes ele sofre porque ele não consegue fazer algumas coisas por conta dos sintomas, né? Eu não sei que outros filmes a gente poderia citar. O Aviador, com Leonardo DiCaprio, eu já acho que deixa muitas dúvidas diagnósticas, embora tenha sido, se faça referências ao TOC, eu acho que ali não é tão bom exemplo.

Porque ele teria um outro problema? Eu não assisti o filme, mas é porque ele teria um outro problema?

É, eu acho que ele tem manifestações que não fica claro se o problema dele são obsessões e compulsões ou se ele teria outro tipo de manifestação.

 

Medicamentos para TOC

 

Legal. Tem algo que você acha que a gente deveria falar, professora, ficou de fora?

Eu não falei do tratamento medicamentoso, né? Então, o que acontece é que aproximadamente 30% das pessoas para quem é oferecido a terapia comportamental não aceita fazer, porque não tolera o desconforto do enfrentamento. Então, para essas pessoas que se recusam a fazer terapia ou para pessoas que já têm um quadro mais incapacitante, instalado, a gente tem uma família de antidepressivos que é considerado tratamento farmacológico de primeira linha, que são os antidepressivos que a gente chama de inibidores de recaptura de serotonina. E no Brasil a gente tem uns 6 ou 7 disponíveis.

Então, a gente usa esses medicamentos e depois de um certo tempo esses medicamentos facilitam a aceitação da terapia por parte do paciente. Quer dizer, aquele desconforto dele fazer o enfrentamento já não fica tão grande, ele consegue trabalhar com os dois tratamentos associados.

Geralmente não é só ele em si que ajuda a pessoa, mas ele ajuda a fazer também a terapia.

Eu acho importante a terapia, fundamental, porque se a gente quer suspender aquele medicamento um dia, a pessoa precisa ter ferramentas próprias para lidar com um retorno dos sintomas no futuro. E o TOC tem essa característica recorrente. Então a gente volta. Então, se a pessoa puder adquirir essas habilidades por meio da terapia, de maneira que a gente consiga suspender o medicamento e a pessoa siga sabendo que ela vai ter sintomas de novo, mas que ela vai saber como manejar, aí é o ideal.

Legal. Ela é como uma doença crônica, então?

É uma doença crônica.

Legal. Obrigado, professora. Muito obrigado, acho que esclareceu bastante. E aí conforme a gente progredir no programa também, a gente vai tratando mais aprofundadamente cada ponto.

É, porque a gente que é especialista no assunto, eu posso ficar a tarde inteira, posso falar muito mais.

A ideia é que a gente chegue no centésimo e fala, agora eu TOC especificamente sobre tratamento. Aí fala só de tratamento.

Tá ótimo, muito obrigada pela oportunidade.

Obrigado você, professora.

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